Pensamento Filosófico

Apenas mais uma reflexão

Carlos CampestreThursday, March 30, 2006 (ESAST)

Ainda hoje, ao entrar numa drogaria para comprar alguns medicamentos de uso contínuo, encontrei uma farmacêutica do outro lado do balcão. Muito elegante, usando um longo jaleco branco com um crachá no bolso esquerdo, me inspirou um profundo respeito. Sempre tive muito respeito por farmacêuticos. Ainda na infância, porque era quem aplicava as injeções, ao ver o farmacêutico sentia um leve incômodo na barriga. Depois, na universidade, pude perceber a qualidade dos estudantes de Farmácia, dos laboratórios, das pesquisas avançadas que desenvolviam... Por tudo isso (e podem me chamar de hipócrita) confesso que fiquei um pouco chocado ao ver aquela farmacêutica no balcão distribuindo medicamentos como se fossem hortaliças, sem o menor constrangimento. Por que motivo, pensei eu, ainda se obriga a indústria farmacêutica a imprimir tarjas vermelhas com a inscrição “venda sob prescrição médica”?
Eu não teria condições morais para recriminar a farmacêutica. Afinal, quem estava comprando remédios sem receita médica?  Mas narrei o fato acima porque me trouxe o ensejo de refletir voltando para casa: estaremos todos representando diuturnamente uma farsa? E os que bradam sinceramente pela ética e pela legalidade são indivíduos que não conseguem separar a ficção da realidade? Quais serão os limites da hipocrisia?
Ainda na escola eu percebi a diferença entre o conteúdo de um discurso público e o de uma conversa privada. O primeiro contato consciente com a hipocrisia geralmente ocorre quando a criança percebe que não pode criticar os colegas senão em conversas reservadas. Pode ser alto o preço pago pela contrapartida de quem foi criticado. Facilmente a criança percebe ser muito mais confortável falar mal de alguém em “off”. Depois, na adolescência, sabemos muito bem o que deve ficar em sigilo absoluto, o que temos que fingir não ter visto e com relação a o que “é melhor fazer vista grossa”. Existem algumas raras pessoas que, já nesta fase, apresentam um limiar de indignação com a hipocrisia mais baixo que a média. Podem ser temidas ou odiadas, mas em geral incomodam muito a muitos. Seria correto não falarmos em âmbito privado algo que não pudesse ser dito em público, excluído obviamente o que só interessasse aos próprios interlocutores.
A hipocrisia em doses moderadas é uma ferramenta muito eficaz em nossa sociedade para obtenção de sucesso profissional, político e, por conseguinte, material e sexual. Enfim, é muito confortável para quem a pratica. Faz muitas vítimas, mas de maneira indireta e sem nexo causal evidente. Além disso, quem a pratica conta com abundante cumplicidade. Quem não é hipócrita com alguma intensidade? Nem que tenha sido para antecipar o final de uma conversa?
Mas... e a solução definitiva de um enorme conjunto de problemas decorrentes desse comportamento, em graus variáveis, fica para quando? Senão vejamos: quando a população ficará protegida da automedicação? Quando as vítimas de maus médicos serão defendidas pelos bons médicos? Quando alguns cidadãos que se pretendem ser de bem deixarão de sonegar impostos ou de corromper miudamente funcionários públicos? Quando pararemos de receitar moderadores de apetite indiscriminadamente? Até quando tentaremos emagrecer tomando moderadores de apetite escondidos em fórmulas fitoterápicas? Até quando nós médicos tentaremos evitar processos judiciais atendendo mais as vontades do que as necessidades dos pacientes? A partir de quando nos recusaremos, todos nós, a realizar um exame complementar de um paciente que não foi a um médico, portanto sem o pedido médico? Vamos defender o ato médico ou não? Nós vamos nos deixar levar pela corrente passivamente? Vamos deixar a tarefa para as autoridades competentes?
Recentemente, numa reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), a empresária Viviane Senna criticou dura e diretamente o Presidente Lula pela palidez da atuação do governo em diversas áreas, enumerando diversos problemas sócio-econômicos graves ainda por serem resolvidos. Ao retomar a palavra, Lula lembrou que chegou à presidência da república por ter repetido insistentemente estas críticas durante anos, reconheceu a sua responsabilidade, mas reiterou que a sociedade não pode esperar todas as soluções do estado e sim ter iniciativa para transformar a realidade ao lado do governo.
Li em algum lugar uma frase atribuída a Freud: “A saciedade da sede de consumo sacia um conjunto de outras sedes.” Os médicos, sendo em sua ampla maioria oriundos da classe média, têm muito a perder se abraçarem decididamente a luta pela ética e pelo bem-estar geral, que passa por contrariar muitos e poderosos interesses. Dessa maneira, freqüentemente aliam-se a eles, calam-se diante do que deveriam gritar, acomodam-se diante do que exigiria uma resposta enérgica.
Se você é médico, pergunte-se: quantas vezes você se calou diante do que feria frontalmente o código de ética médica do artigo 6º ao 19º? É claro que não é possível mudarmos nosso comportamento abruptamente, muito menos a sociedade, mas... por que exigimos isso de outros profissionais, como os funcionários públicos, os advogados, os policiais...? Até quando ficaremos passivos? Não me incomoda não ver mudanças, incomoda-me nossa passividade, principalmente a minha passividade. Incomoda-me saber que daqui a 15 dias, ao voltar à drogaria, continuarei passivo, apesar de indignado.