Poucas pessoas tiveram a capacidade de concretizar seus sonhos que o antropólogo Darcy Ribeiro teve. Mineiro de Montes Claros, Darcy formou-se na USP aos 24 anos, passando a trabalhar no antigo Serviço de Proteção ao Índio, como etnólogo. Neste período da sua vida, Darcy conviveu com inúmeras tribos indígenas brasileiras e desenvolveu pelos índios profunda amizade e respeito, tendo escrito diversos livros que testemunham seus cultos, hábitos e crenças. Poucos brasileiros tiveram a oportunidade de conhecer tão profundamente o índio com a propriedade de Darcy Ribeiro, sendo antropólogo.
A sua espantosa capacidade intelectual e cívica se faz sentir em 1963 quando, já sendo um respeitado autor de quatro volumes sobre o silvícola nacional e aguerrido militante de esquerda na defesa intransigente do direito à existência da etnia indígena, é chamado para assumir a Chefia da Casa Civil da Presidência da República no curto governo João Goulart. Após o golpe militar de 1964, ficou dez anos exilado, retornando apenas em 1974 para o Rio de Janeiro. A partir de então, e com maior intensidade de 1982 em diante, não abandonou mais a política, sempre sob a legenda do PDT (partido democrático trabalhista), em defesa da educação. É o fundador e idealizador das universidades de Brasília (UnB) e Estadual do Norte Fluminense (UENF).
Apaixonado pelo Brasil e por seu espectro étnico (“uma nova Roma, lavada em sangue negro e sangue índio, destinada a criar uma esplêndida civilização, mestiça e tropical, mais alegre, porque mais sofrida, e melhor, porque assentada na mais bela província da Terra.”), Darcy buscou exaltar, durante o período em que participou do governo do estado do Rio de Janeiro (1982-1986), os signos e manifestações das matrizes étnicas dominadas construindo um esplêndido palco para o carnaval e um monumento em homenagem a Zumbi dos Palmares na Praça Onze de Julho.
Caracterizado como “mentalmente insubordinado” e a “inteligência mais autônoma do terceiro mundo” por ninguém menos que Anísio Teixeira, Darcy iniciou um estudo civilizatório sobre o Brasil em 1964, em seu exílio no Uruguai. O objetivo era refletir sobre as causas do insucesso do Brasil como nação, incapaz de patrocinar divisão equânime, ou menos iníqua, de suas riquezas.
Ao longo de trinta anos (1964-1994) este ensaio antropológico foi alimentado por notas e reflexões do então senador pelo estado do Rio de Janeiro (1990-1997), até o episódio de sua internação numa unidade de cuidados intensivos, por disfunções do aparelho respiratório, na primeira metade dos anos 90. Vendo-se na iminência de falecer sem completar seu estudo principal sobre o Brasil, o que lhe subtrairia boa parte do sentido da vida, Darcy deixou a UTI contra a vontade médica “para viver e também para escrever este seu livro mais sonhado”.
Na construção de “O povo brasileiro – A formação e o sentido do Brasil”, Darcy analisou centenas de obras de diversos intelectuais que tentaram entender este assombroso país, de Raymundo Faoro (Os donos do poder, 1958) a Fernando Henrique Cardoso (Capitalismo e escravidão no Brasil meridional – O negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul, 1962) passando por Celso Furtado (Formação Econômica do Brasil, 1959) e, inevitavelmente, Sérgio Buarque de Holanda (Monções, 1945 e Raízes do Brasil, 1956, entre outras) juntando a estes tijolos de ouro, as impressões antropológicas e políticas de toda uma vida.
O que diferencia “O povo brasileiro...” de um livro antropológico frio e técnico, é o fato dele ter sido escrito com paixão. Darcy fala do Brasil como do lugar onde passou a infância, e do povo brasileiro como da primeira mulher que amou. Não guarda compromisso estreito com a linguagem técnico-científica. Como no episódio do encontro civilizatório:
“Para os índios que ali estavam, nus na praia, o mundo era um luxo de se viver, tão rico de aves, de peixes, de raízes, de frutos, de flores, de sementes, que podia dar as alegrias de caçar, de pescar, de plantar e colher a quanta gente aqui viesse ter. Na sua concepção sábia e singela, a vida era dádiva de deuses bons, que lhes doaram esplêndidos corpos, bons de andar, de correr, de nadar, de dançar, de lutar. Olhos bons de ver todas as cores, suas luzes e suas sombras. Ouvidos capazes da alegria de ouvir vozes estridentes ou melódicas, cantos graves e agudos e toda a sorte de sons que há. Narizes competentíssimos para fungar e cheirar catingas e odores. Bocas magníficas de degustar comidas doces e amargas, salgadas e azedas, tirando de cada qual o gozo que podia dar. E, sobretudo, sexos opostos e complementares, feitos para as alegrias do amor.”
Num rasgo de genialidade, Darcy faz uma crua e corajosa recapitulação do passado escravocrata, até hoje carimbado na nossa incapacidade atávica de equalizar oportunidades:
“Apresado aos quinze anos em sua terra, como se fosse uma caça apanhada numa armadilha, ele era arrastado pelo pombeiro – mercador africano de escravos – para a praia, onde seria resgatado em troca de tabaco, aguardente e bugigangas. Dali partiam em comboios, pescoço atado a pescoço com outros negros, numa corda puxada até o porto e o tumbeiro. Metido no navio, era deitado no meio de cem outros para ocupar, por meios e meio, o exíguo espaço do seu tamanho, mal comendo, mal cagando ali mesmo, no meio da fedentina mais hedionda. Escapando vivo à travessia, caía no outro mercado, no lado de cá, onde era examinado como um cavalo magro. Avaliado pelos dentes, pela grossura dos tornozelos e dos punhos, era arrematado. Outro comboio, agora de correntes, o levava terra adentro, ao senhor das minas ou dos açúcares, para viver o destino que lhe havia prescrito a civilização: trabalhar dezoito horas por dia, todos os dias do ano. No domingo, podia cultivar uma rocinha, devorar faminto a parca e porca ração de bicho com que restaurava sua capacidade de trabalhar no dia seguinte até a exaustão.
Sem amor de ninguém, sem família, sem sexo que não fosse a masturbação, sem nenhuma identificação possível com ninguém – seu capataz podia ser um negro, seus companheiros de infortúnio, inimigos – maltrapilho e sujo, feio e fedido, perebento e enfermo, sem qualquer gozo ou orgulho do corpo, vivia a sua rotina. Esta era sofrer todo o dia o castigo diário das chicotadas soltas, para trabalhar atento e tenso. Semanalmente vinha um castigo preventivo, pedagógico, para não pensar em fuga, e quando chamava atenção, recaía sobre ele um castigo exemplar, na forma de mutilações de dedos, do furo dos seios, de queimaduras com tição, de ter todos os dentes quebrados criteriosamente, ou dos açoites no pelourinho, sob trezentas chicotadas de uma vez, para matar, ou cinqüenta chicotadas diárias, para sobreviver. Se fugia e era apanhado, podia ser marcado com ferro em brasa, tendo um tendão cortado, viver peado com uma bola de ferro, ser queimado vivo, em dias de agonia, na boca da fornalha ou, de uma vez só, jogado nela para arder como um graveto oleoso.
Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida, através de séculos, sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós,brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício de brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.
A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária.”
Refazendo os caminhos históricos que nos trouxeram até o que somos agora, sem apego a episódios famosos, mas sim às andanças do povo, aos percalços das diversas matrizes étnicas brasileiras, à colonização das diversas regiões, o autor nos leva a conhecer de perto a alma do sertanejo, do caipira, do mulato, do gaúcho, e de outros daqueles tipos humanos que só nos foram mostrados em gravuras estáticas nos livros escolares ou que encontramos transitoriamente em viagens de turismo pelo país.
Como surgiu o sertanejo? Como sobreviveram os colonizadores do litoral catarinense? Que fatores influenciaram a conquista da integridade territorial e lingüística brasileira? Darcy nos ajuda a percorrer estas questões de maneira a suscitar perguntas mais profundas, capacitando-nos minimamente à reflexão que o levou a iniciar este estudo: Por que o Brasil ainda não deu certo?
Ao final da leitura, pode-se sentir um grave respeito pelo país que é o Brasil, pelo povo que somos, e um assombro diante do que poderemos vir a ser possuindo tamanho bagagem étnica e histórica.