Cultura

25 anos sem Glauber - E o sertão vai virar mar...

Marilia AlmeidaSunday, September 03, 2006 (ESAST)

Há uma época da história deste país em que paira algo de muito sombrio no ar, algo um tanto quanto inusitado. Um momento em que se ainda é permitido sonhar e tudo está em seu mais pleno desenvolvimento. Principalmente a cultura, tudo está em perfeita coesão com o plano desenvolvimentista do governo até então, de JK e Getúlio.

E é neste contexto, de plena formação da identidade brasileira, que Glauber Rocha, cineasta baiano, fundador do Cinema Novo Nacional, “com uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”, irá produzir um filme libertário em seu conteúdo, mas, principalmente, na sua produção. Mas, é preciso observar, esta explosão de espírito revolucionário parece que não teve hora mais certa para explodir, apesar da contradição aí embutida.

“Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o segundo longa-metragem do diretor, é lançado a poucos dias do Golpe Militar, em 1964, e obtém uma grande repercussão na crítica, encarado por muitos como o filme revelação de seu diretor e a obra que projetou seu movimento mundialmente. O que era para ser um obstáculo para os grandes sucessos que esta obra iria conquistar, foi um motivo a mais para sua genialidade.

O filme driblou a censura de tal modo que, de comunista, foi considerado “filme de macho” para os austeros coronéis e líderes militares. O mesmo não iria acontecer com seu próximo longa, “Terra em Transe”, lançado em 1967 e, este sim, uma crítica sem máscaras do governo, mas nem mais nem menos feroz do que “Deus e o Diabo”. Este filme levaria Glauber ao exílio, onde vai produzir filmes até sua morte, em 1991.

O filme em si é um passeio pelo sertão, mas não aquele reverenciado anteriormente em outras obras importantes como Vidas Secas, mas aquele em que se pode o rosto de sua própria gente maltratada, sua própria voz, aonde convivem os dois lados da miséria, ambíguos, complementares, decididamente reveladores.

Manoel e Rosa são um casal de sertanejos pobres bombardeados por uma série de sonhos e ilusões que suas vidas pedem, quase clamam. O filme vai mostrar essa história sem perspectiva do casal, guiado ora pela forte religião, personificada na figura do negro Santo Sebastião, ora pelo louro Corisco, cangaceiro do bando de Lampião, sempre embalados pelo ritmo e a narrativa cantada da literatura de cordel e tendo por coadjuvantes o próprio povo de Montesanto, na Bahia.

As músicas do filme são, aliás, uma obra de arte à parte, nem tanto pela bela ópera das clássicas Bachianas, de Villa Lobos, mas pelas canções de viola do violeiro cego. Ele guia Manoel e Rosa até Corisco e vive pelo sertão a cantar. Tristes e até divertidas, estas canções revelam quase um capítulo inteiro e permeiam todas as transições e acontecimentos marcantes da obra, trazendo a voz e a beleza da cultura deste povo sofrido até nós.

Uma das cenas mais embotadas de emoção e a qual resume o espírito do filme é quando Antônio das Mortes, matador sombrio e melancólico, encontra o cego cantador. Ele acaba por contar onde está Corisco e o casal de protagonistas, mas tenta fazê-lo compreender que a verdadeira culpa não reside neles. Ao lado de autores renomados como Yoná Magalhães (Rosa) e Othon Bastos (Corisco) em plena juventude, além do novato-revelação Geraldo Del Rey, o violeiro é simples em sua atuação, mas tem uma voz mansa que consegue demonstrar toda a tristeza que a região provoca com uma sensibilidade comotiva.

A grande técnica de Glauber consiste em não usar técnica nenhuma. Dá pleno movimento a seus atores e parece uma criança apresentada pela primeira vez a uma câmera: brinca, rodopia, mexe com grandes planos a la Eisenstein, fundos e cantos da tela. E consegue, com impressionante precisão, formular as mais belas montagens de cena, onde utiliza cada detalhe do cenário, como em um quadro do mais metódico pintor.

“Deus e o Diabo na Terra do Sol” nos mostra como o desespero pode guiar um ser humano a viver em contradição. Deus e o demônio aqui estão transtornados, não se sabe ao certo quem é quem. E o povo vive nesta eterna dúvida, até que aparece o matador e acaba por libertá-lo, ou o deixa à deriva?  Não se sabe. Glauber nos deixa esta doce dúvida e densa reflexão. Mas, assim como a Eldorado de “Terra em Transe”, qualquer semelhança dessa linguagem metafórica do cordel com o período mais negro de nossa história, não é mera coincidência.